Sim, na maior parte dos casos. E a resposta completa é mais interessante que o sim: quando o astigmatismo é ignorado no planejamento da cirurgia do cristalino, ele vira o principal motivo de a pessoa continuar dependendo de óculos depois de operar.
O que é astigmatismo, sem rodeio
Numa córnea regular, a curvatura é parecida em todas as direções — como a superfície de uma bola. No astigmatismo, ela é mais curva num eixo do que no outro, mais parecida com a lateral de uma bola de futebol americano.
O resultado é que a luz não converge num único ponto. Em vez de um foco, formam-se dois, em planos diferentes. A imagem chega esticada numa direção, e o cérebro entrega aquela sensação conhecida de contorno duplicado ou borrado que não melhora ao aproximar nem ao afastar.
Por que ele não desaparece com a troca do cristalino
Aqui está o ponto que costuma surpreender. A maior parte do astigmatismo é corneano — mora na córnea, que é a estrutura transparente na frente do olho. A cirurgia do cristalino mexe na lente que está atrás dela.
Ou seja: trocar o cristalino, por si só, não corrige o astigmatismo da córnea. Se nada for feito a respeito, ele continua exatamente onde estava. A pessoa passa pela cirurgia, ganha nitidez, e descobre que ainda precisa de óculos — justamente por causa do grau que não foi endereçado.
Existe também o astigmatismo de origem no próprio cristalino, que sai junto com ele. Distinguir um do outro é parte do exame, e muda o cálculo.
As formas de corrigir dentro da cirurgia
Lentes intraoculares tóricas
É o caminho mais usado. A lente tórica tem, embutida na sua óptica, a correção do astigmatismo — e precisa ser posicionada num eixo específico dentro do olho, calculado antes da cirurgia. Alguns graus de rotação fora do alvo já reduzem o efeito, o que explica por que esse posicionamento é uma etapa cirúrgica em si, e não um detalhe.
Incisões relaxantes
Para astigmatismos de grau baixo, incisões calculadas na córnea podem reduzir a curvatura no eixo mais acentuado. É uma técnica que funciona bem dentro de uma faixa limitada.
Planejamento da própria incisão
A incisão pela qual a cirurgia é feita já altera discretamente a curvatura da córnea. Escolher onde fazê-la é uma decisão que pode trabalhar a favor ou contra o resultado refrativo.
O que define o caminho
- O grau — astigmatismos baixos, médios e altos pedem abordagens diferentes.
- O eixo — em qual direção a córnea é mais curva, medido com precisão.
- A origem — corneano, cristaliniano ou misto.
- A regularidade — uma córnea irregular, por cicatriz ou ceratocone, muda completamente a estratégia.
- A estabilidade — o astigmatismo tem se mantido ou tem mudado ao longo dos anos?
Nada disso se resolve com uma refração de consultório. Exige topografia e tomografia de córnea, biometria de precisão e, quando indicado, aberrometria. É a diferença entre saber que existe astigmatismo e saber exatamente qual astigmatismo é aquele.
A estratégia precisa acompanhar a vida do paciente, e não apenas um número encontrado no exame.
A pergunta que vale fazer na consulta
Se você tem astigmatismo e vai operar o cristalino — por catarata ou por finalidade refrativa — vale perguntar de forma direta: o que está previsto no meu planejamento para o astigmatismo?
A resposta deveria incluir o grau medido, o eixo, a origem e a estratégia escolhida, com o motivo. Se a correção do astigmatismo não estiver no plano, é provável que os óculos continuem no plano.
Corrigir astigmatismo na cirurgia do cristalino é possível na maioria dos casos, mas não é automático. É uma decisão que se toma antes, com exames na mesa — e que faz boa parte da diferença entre operar bem e operar bem e não depender mais dos óculos.